Se o meu cão falasse denominar-se-ia como “um animal de portas fechadas”. Daqueles que após escolher um caminho, a dita porta, não olha para trás e não se permite sequer ter vontade de voltar para a que entretanto encerrou. É um falso, este animal. Embora diga que estas portas são blindadas, com várias fechaduras, com senhas diferentes a cada semana e com um sofá, duas cadeiras, uma mesa de jantar e com aqueles quadros - frios, distantes, feios do Portugal antigo – a bloquear o seu acesso, está a mentir. Não que não as feche, até porque o faz, mas usa um cadeado (ou aloquete, carai) muito fraquinho e sabe sempre onde esconde a chave (num sítio complicado, que dê trabalho, mas não inacessível). Mas nunca, nunca abandona o que fechou sem fazer um buraquinho quase que invisível para conseguir ver o que perdeu, e como está a situação, naquele mundo quase que paralelo. E, como se isto não bastasse, de vez enquando vai mesmo à cave, ao armário mais escondido, o armário dos livros do passado, das fotografias do antigamente e da decoração que já não serve na parte da casa para as visitas. O armário do pó e da sujidade de anos e anos a pedir companhia, sem sucesso. O armário da gaveta de veludo vermelho, com puxadores feios, de uma madeira gasta, e com muita tralha, muitos papéis, muitas cartinhas de criança, muitas encomendas e recados. E no meio dessa tralha, no meio não, em baixo de toda essa tralha, mesmo no canto mais distante do puxador está uma bolsinha e dentro dela a chave, a chave que abre a porta.
E hoje utilizou-a. E hoje abriu uma porta adormecida há um ano e um mês...
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
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