domingo, 16 de agosto de 2009
Português de Portugal
Se o meu cão falasse diria que hoje, provavelmente por ter dormido pouco, acordou cheio de saudades. Não é daqueles que diz que o passado foi e aí perdeu o interesse. Não diz que o futuro é o importante. Não diz que não sente saudades. Vive-as e arriscar-me-ia a dizer que se alimenta, por vezes, desse estado de espírito. Será o futuro, evidentemente, mas no momento em que o irmão do cão se encontra ao computador, em que o pai revê, talvez pela sétima vez, as notícias desportivas e em que a mãe lê, entusiasmada, mais um romance policial, o meu cão é o passado. É a soma de inúmeros acontecimentos, encontros e desencontros. É, até, a soma das saudades. E foi assim que acordou, com saudades. Com saudades da liberdade de poder escolher, sem ter dezanove anos em cima, quem é e o que quer. De poder estruturar a sua vida sem pressões e factores externos. Com saudades de aprender. De ensinar. Com saudades de dormir uma hora. Com saudades de sentir saudades do dia anterior. De saber que seriam colmatadas, as saudades, no próprio dia. Com saudades de conhecer. De reconhecer. Com saudades da reciprocidade. Com saudades das palavras, dos bahs e dos sashavores. Com saudades do sentido de humor, da inteligência e do fundo bom. Com saudades das chegadas e até, por estranho que pareça, das partidas de quarenta e cinco minutos. Com saudades do tempo que, na verdade, nunca existiu.
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